O filme Herói é ambientado na China antiga, quando sete reinos lutavam pelo domínio do território que virá a formar a China, numa luta que se prolongou durante praticamente 250 anos – o período dos Estados Guerreiros (475-221 A.C.) O Reino de Qin é o mais forte e o seu monarca o mais determinado a unir os territórios, formando um vasto estado sob o seu reinado. Os inimigos querem assassiná-lo a qualquer custo e o Rei decreta a entrega de elevadas recompensas contra a cabeça dos mais poderosos guerreiros que procuram eliminá-lo: Espada Quebrada, Neve Flutuante e Céu. A tarefa parece impossível, mas um oficial de baixo estatuto, xerife de província, é levado à presença do rei, alegando ter matado os três assassinos e apresentando as suas armas como prova. Em audiência com o soberano, o xerife Sem Nome explica como conseguiu vencer inimigos aparentemente superiores a ele.
A história do filme é baseada no gênero Wuxia Pian, que desenvolveu-se praticamente em paralelo com o advento do cinema na China, no começo da década de 10. Os Wuxia Pian são como adaptações dos contos de trovadores chineses para as telas, geralmente centrado na figura feminina e narrando peripécias que misturam poderes mágicos, habilidade e alguma intriga romanesca.
É no relato de Sem Nome que toda a história do filme se desenvolve. Como no clássico RASHOMON de Akira Kurosawa, temos várias versões de uma mesma história: a de Sem Nome, a do Imperador e a que mostra como tudo realmente aconteceu, em forma de flashbacks. Num primeiro momento, a história é contada sob a ótica do herói anônimo. Ele descreve como bolou um plano complicado para conseguir executar os três assassinos que buscavam a morte do rei, jogando-os um contra os outros. No segundo momento, o Rei Qin, desconfiado, revela que tudo não passa de uma história inventada para ganhar sua confiança, e descreve sua versão dos fatos – na verdade, os três assassinos haviam contribuído para o plano de acabar com o rei, sacrificando suas próprias vidas. Surpreso com a sagacidade do rei, Sem Nome conta então a história real – houve um plano em conjunto, mas um dos assassinos não concordava com a execução do rei. A partir da história completa, fica claro que a sua execução do rei, talvez não seja a melhor saída para a província, e Sem Nome fica incerto do que deve fazer.
Visualmente, o que se destaca é a forma característica como as cores conduzem o filme, cada versão nos ajuda a compreender as personalidades e as motivações de todas as personagens. Para diferenciar cada versão da história foi escolhida uma cor predominante, tanto nos cenários quanto nos figurinos: vermelho, azul e branco. Quanto mais próxima do que realmente ocorreu, mais clara a cor. O verde e o preto também são usados com significados diferentes.
Numa entrevista com o diretor, Zhang Yimou, ele explica o uso das cores: IW: Como você fez que aparecesse com as mudanças de cor no filme: vermelho, branco, azul e verde?ZY: “Herói” não é um filme de artes marciais tradicional. Eu gosto de “Rashomon” e eu pensei que podia usar cores diferentes para partes diferentes do filme.
IW: Porque essas cores em particular, vermelho, branco e azul?
ZY: Não existe um significado particular para cada cor. Eu apenas precisava de cores para representar…
IW: Pontos de vista.
ZY: Sim, sim. Cada cor representa um período diferente e uma diferente (maneira de contar a) história. O diretor pode não ter tido a intenção de dar um significado as cores, além de uma mera representação, mas várias simbologias podem ser agregadas a elas, pois as cores imprimem mais do que uma variada paleta de cores ao filme, elas possuem um efeito psicológico e estão recheadas de significações. A cada vez que a história é recontada toda a cor – da fotografia ao cenário e vestuário – altera-se. Na versão de Sem Nome há primeiramente a cena de sua luta contra Céu, toda ela é escura, em tons de cinza e preto, difere somente a vestimenta de céu, um marrom alaranjado. Nesta cena toda a luta se passa na cabeça dos personagens, em preto e branco. O preto nesta cena representa a morte e a falta de emoção, pois ambos se desconhecem, não existe nenhum sentimento entre ambos além da morte de um. Nas cenas que são emocionalmente carregadas o vermelho predomina, nelas vêem-se personagens envoltos em paixões avassaladores, rancores e traições. A primeira versão – contada por Sem Nome – apresenta ambos os assassinos como amantes. Possuindo a cor vermelha como predominante, o ar de paixão fica intensificado. Ainda assim, é uma paixão relutante – ambos não se falam há anos, e há um clima de gravidade no ar. Além disso, nesse mesmo momento, o vermelho é usado como tinta por calígrafos, indicando a intensidade pelo qual se dedicam à sua tarefa.
O azul é usado em cenas em que a sobriedade e a tranqüilidade predominam. A segunda versão, sugerida pelo rei, mostra os personagens novamente como amantes, mas a cor predominante é o azul. Esse tom dá um ar mais frio à trama – segundo o rei, o plano é inteligente e foi montado de forma calculista e confiante, mas também imprime às cenas um romantismo e idealismo quase pueril.
Finalmente, a terceira e verdadeira versão. Esse momento tem o branco como cor predominante, representando a verdade e a pureza das palavras. A cor branca é a junção de todas as cores, mostra uma espécie de cruzamento entre as duas primeiras versões, existe amor, mas existe amargura. Seco e realista, o branco é usado em cenas que mostram o que realmente aconteceu, representando o que é limpo, claro.
O verde é a cor do conhecimento e no filme é usado em cenas que remetem a fatos passados, ou seja, da memória.
Soma-se a essa representação belíssima através das cores, momentos em que grandes massas de pessoas movem-se coreografadas, transformando as pessoas em cenários. As lutas em Herói são pinturas móveis, lúdicas, coloridas, mais carregadas de reflexão do que ação, os silêncio são fundamentais, são para ser escutados, fazem parte da história.Herói conta uma história sobre revolução, sobre o amor à pátria e, sobretudo, sobre o sacrifício humano em prol de um bem maior.Sabemos que toda a imagem, seja na fotografia, no cinema ou na televisão, está recheada de significados, as imagens, por si mesmas, não têm nenhum sentido. Para dar sustentação a essas imagens é necessária a presença ativa do mito, o poder mítico que está enraizado na mente de cada indivíduo e na concepção da sociedade como um todo, sedimentando a coesão social através do poder do imaginário e das simbologias inseridas na sua áurea.
Os mitos existem como elemento de reconhecimento e do sentimento de pertencer à comunidade. A força do mito produz laços sociais e gera uma sociabilidade imagética, governada por novos e antigos mitos. O mito da beleza, como as lindas modelos e atrizes que aparecem em comerciais de xampus, sabonetes ou qualquer produto de beleza, usando aquele ideal de aparência, incrustado pelas mídias, para vender os seus produtos, ou, como no filme Herói, a presença salvadora dos heróis, que lutam por uma causa, por um ideal e um bem maior, sacrificando, até mesmo, suas próprias vidas ou quando pela morte o sujeito torna-se um herói, um mártir sendo perdoado de todos os seus pecados anteriores.
O herói do filme, Sem Nome, percorreu toda uma saga, sacrificando vidas e lutando com milhares de homens para chegar ao seu objetivo, matar o Rei Qin, mas em prol de uma China unida e sem guerras, ele desistiu de sua missão e acabou morto.
Ele adentrou o palácio real como assassino, mas saiu dele como herói.
Tags: Herói, mito, signicação das cores, as cores no filme Herói, Wuxia Pian, Roshomon, Zhang Yimou, vermelho, branco, azul, verde, preto